“O Grupo Dom Pedro tem uma condição única, que é ter três hotéis e cinco campos de golfe em Vilamoura”


“O Grupo Dom Pedro tem uma condição única, que é ter três hotéis e cinco campos de golfe em Vilamoura”

2007 – O Grupo Ocêanico compra a Lusotur Golfes de André Jordan, com os seus cinco campos de golfe, por 125 milhões de euros.

 2016 – O Grupo Oceânico vende por sua vez à Kay CC Portugal (um consórcio composto pelo Grupo Dom Pedro e um grupo de investidores ingleses) por €68 milhões.

 Luís Correia da Silva foi administrador da Lusotur Golfes e o destino ditou que esteja desde há dois anos novamente à frente do golfe em Vilamoura. Pelo meio, foi, entre outras coisas, secretário de Estado do Turismo (2003-2004) e consultor de golfe.

 O que se pode esperar para a edição deste ano do Portugal Masters?

Já tínhamos tido a indicação, como aliás veio a confirmar-se, de que poderíamos ter alguns jogadores da Ryder Cup, pelo que nos preparámos para ter o campo em condições tendencialmente muito próximas daquilo que vão ser jogadas no Le Golf National – estamos a falar na velocidade dos greens, no corte dos roughs, etc.

Este será o primeiro ano em que vamos ter um novo rough no Victoria, um desafio a que nos lançámos e que hoje está completamente cumprido e conseguido. Foi um back to the basics: quando o campo foi feito, era para ser um old bermuda course nos fairways, roughs e semi roughs. Por um conjunto de circunstâncias, decorrentes da World Cup aqui realizada em 2005, teve de ser alterado e passou a ser um rough de rye grass, que é uma relva de inverno, e como tal tinha dificuldade de estar em condições antes do Portugal Masters, precisamente porque sofria muito durante o Verão.

O desafio adicional, em relação à mudança do rough, foi fazê-lo sem fechar o campo. Um projecto normal destes levaria a pelo menos seis meses de encerramento do campo, com a consequente ausência de receitas. Com uma grande equipa, aqui liderada pelo eng.º Simão da Cunha, foi desenvolvido um projeto por sucessivos passos, que é até considerado extraordinário do ponto de vista da sua execução pelo próprio European Tour.

Enfim, ao contrário dos anos anteriores, os roughs vão ser decisivos. Anteriormente era quase indiferente jogar dos roughs ou dos fairways, porque a rye grass, durante o verão, cresce muito menos, o que fazia com as condições que tinha em Setembro fossem muito mais acessíveis. Neste momento a bermuda está com seis centímetros de altura e os jogadores que lá forem parar não terão as mesmas facilidades.

Foram feitas outras intervenções?

Do ponto de visto do campo, nós fizemos duas intervenções muito importantes: a primeira foi este projeto de reconversão dos roughs e semi roughs, que eu diria que está 95 por cento conseguido; a outra foi a substituição de todos os colares do campo, a zona relvada à volta dos greens, porque eram irregulares – tinham várias misturas de relva – para aquilo que são os padrões de qualidade para um torneio destes. Neste momento temos uns colares fantásticos, verdadeiramente de primeira linha. De resto, os greens e os tees vão estar a 100 por cento e os fairways na altura estarão em ótimas condições.

Os resultados vão ser mais altos desta vez, já não vai ser aquele festim de birdies e eagles?

Vai depender muito da altura a que o European Tour nos disser para cortar rough e semi rough. Eu diria que nós poderemos ter roughs a seis centímetros ou a nove, dependendo da dificuldade que querem impôr aos jogadores. De resto, do ponto de vista da organização, vamos ter uma cidade, a cidade das tendas, ainda melhor que o ano passado. Estamos todos os anos a melhorar as diversas áreas, vamos ter também melhores condições para os espectadores e estamos à espera de ter também um ótimo tempo para fazer com que mais pessoas possam a assistir em relação aos anos anteriores.

Tem acompanhado o Portugal Masters ao longo dos anos?

 Sim, vim muitas vezes, até porque normalmente era convidado para jogar o Pro-Am, Tive o privilégio de jogar aqui com alguns dos melhores jogadores do mundo. Com o Retief Goosen até joguei duas vezes, era um homem extraordinário e muito simpático, sempre preocupado em corrigir o nosso jogo. Ele tinha perfeitamente na cabeça o mapa do jogo e basicamente fazia muito poucos ensaios antes de bater a bola. Conhecia os buracos todos em detalhe com o caddie e não fazia grandes análises, punha-se à bola e batia – e aquilo era uma coisa de relógio, a bola estava sempre no meio do campo. Joguei também com o Padraig Harrington, que depois veio a ganhar, com o Martin Kaymer, na altura em que ele era um jovem jogador, com o Darren Clarke, o Sam Torrance, o Edoardo Molinari, para citar mais alguns de que me lembro.

Tendo em conta o seu passado e historial nos campos de Vilamoura, do tempo da Lusotur Golfes, antiga proprietária da mesma, parece ter sido uma escolha óbvia para os gerir em representação do consórcio Kay CC, que os adquiriu à Ocêanico em 2016…

 Do ponto de vista pessoal, eu acompanhei não só a exploração de campos de golfe nos tempos da Lusotur, como, no âmbito das minhas posteriores atividades como consultor, estive envolvido em vários outros projetos que tinham que ver fosse com a exploração de campos de golfe, fosse com a construção de novos campos – alguns deles que depois não se concretizaram, porque entretanto houve aquela crise económica e financeira.

Quando surgiu a oportunidade de o Grupo Dom Pedro se associar para adquirir os campos de golfe de Vilamoura à Oceânico, o sr. Stefano Saviotti desafiou-me a olhar para aquilo que era uma oportunidade de negócio e ver em que medida é que faria sentido, em que medida poderia ser estrategicamente importante para as actividades do Grupo na área hoteleira.

Estivemos basicamente um ano a negociar tudo, e nessa altura também foi muito importante este meu envolvimento e o conhecimento das pessoas, porque uma coisa é aquilo que os documentos de venda apresentam, outra coisa são as diligências técnicas e financeiras que temos de fazer, para ver em que condições é que os campos efetivamente estão. Quando se começou a perspetivar a compra, o Sr. Saviotti convidou-me para ficar aqui à frente.

Em que medida é que privou com Arnold Palmer, o lendário golfista americano que gizou o circuito do Dom Pedro Victoria Golf Course.

 Eu tenho um detalhe importante: coube-me a negociação final com o Palmer Design Group do contrato final para o desenho do campo. Depois, na parte da construção, já não tive um papel assim tão importante, porque era uma área que estava basicamente assumida pelo Fernando Nunes de Pedro e o Simão da Cunha, que já nessa altura trabalhava aqui como head greenkeeper. Mas mantive durante toda essa altura a articulação do ponto de vista da administração com a equipa do Arnold Quem vai a minha casa fica surpreendido com algumas fotografias minhas com o Arnold Palmer e dedicatórias. Era um homem verdadeiramente extraordinário, de muito fácil contacto. Tive várias reuniões com a sua equipa nos EUA, e ele aparecia sempre para vir cumprimentar e saber como estavam as coisas a correr.

Quando era ele a vir a Portugal, vinha no avião privado, a pilotar. Era um homem notável do ponto de vista do profissionalismo, porque nós fazíamos um programa normalmente muito cheio, fosse nas questões técnicas e visitas detalhadas ao campo, fosse nas questões dos contatos com os jornalistas, na perspetiva da mediatização do projeto que estávamos a desenvolver. Independentemente da sua idade e do seu cansaço, ele cumpria-o rigorosamente.

Depois, como naquela altura estávamos a construir o Victoria, todos os anos nos convidava para ir ao Arnold Palmer Invitational, que é feito no campo que foi ele que desenhou em Bay Hill, na Florida, onde tinha a sua casa e escritórios. Tínhamos sempre um convite bastante privilegiado até do ponto de vista do contato com ele – e é interessante verificar que, tendo ele vários campos em construção em todo o mundo, sempre disse que este lhe era um campo de referência, não só porque tinha sido o seu primeiro na Europa, como por ter representado um grande desafio, na medida em tinha partido de uma área que era completamente plana e que teria de ser um campo de campeonato mas ao mesmo tempo agradável de se jogar por parte de pessoas com diferentes tipos de handicap.

Tem o curso de agronomia, isso facilita um pouco a sua tarefa na gestão dos cinco campos do Grupo Dom Pedro em Vilamoura?

 Eu trabalhei nos primeiros anos da minha vida ligado à área de agronomia, mas desde o meu mestrado em economia que nunca mais o fiz. Nós temos aqui agrónomos a trabalhar aqui nos nossos campos em Vilamoura, e a única coisa que posso dizer é que talvez eles tenham mais facilidade em falar comigo do que com outras pessoas que não têm esse perfil de formação. E é mais fácil para mim perceber e questionar certas e determinadas questões técnicas com o background que tenho, do que propriamente uma pessoa que tivesse estudado direito ou mesmo economia.

Eu dou um exemplo em concreto: nós estamos a preparar um investimento significativo na reflorestação do Victoria. O trabalho foi feito pelo eng.º Simão da Cunha e foi muito discutido quais seriam as melhores combinações de árvores e arbustos e como o campo poderia vir a ser percecionado dentro cinco anos ou 10. Há aqui uma maior facilidade em discutir essas questões.

A reflorestação do campo é uma novidade que nos está a dar…

 Sim, o estudo já foi feito, vai ser discutido muito proximamente ao nível da administração. Vamos fazer aqui um investimento significativo na reflorestação. Onde hoje se encontra o Victoria havia uma pista de aviação, era uma área completamente plana, sem uma árvore. E tudo aquilo que se vê como modelação do campo e obstáculos de jogo foram construídos através da movimentação do terreno. Quando o campo foi aberto, houve um primeiro esforço de reflorestação, são árvores que hoje têm mais de 15 anos de vida, e neste momento pensamos que vale a pena fazer um reforço disso, porque há muitas áreas do campo que dão uma perceção de estarem um pouco abandonadas, no sentido em que não têm uma cobertura vegetal ou arbórea como tem noutros campos nossos. E depois também há um conjunto de áreas pensamos que é importante terem uma delimitação relativamente a terrenos exteriores, fazer uma espécie de sebe contínua de árvores e arbustos que permitam delimitar esses buracos, como se vê no Old Course ou no Pinhal.

O que mudou com a entrada do Grupo Dom Pedro nos campos de Vilamoura, em termos política, filosofia e gestão?

Eu diria que mudou tudo. Com isto não está nenhuma crítica aos anteriores proprietários, eu normalmente não gasto muito tempo a falar do passado e a justificá-lo. A única coisa que tenho de dizer é que o Grupo Oceânico, pelas razões que todos sabemos, tinha os campos à venda, porque, basicamente, faliu, faliu o banco que era o seu financiador. E portanto os campos estiveram anos dentro de um chamado bad bank, que os geria tentando obter o máximo de receitas e fazendo o mínimo de investimento possível para ter os campos em funcionamento. Do ponto de vista de quem gere uma situação destas, era uma coisa perfeitamente lógica.

Ora, os campos de golfe, como os hotéis ou quaisquer outros empreendimentos, requerem manutenção, e o que encontrámos foram problemas que se adiaram durante anos. Por exemplo, a maior parte das pessoas não tem qualquer ideia de qual foi o investimento que tivemos de fazer aqui para podar as árvores. É que, se as árvores não forem podadas, fazem sombra sobre os fairways e greens, afetando-os e à sua qualidade. Quando a luz entra, a condição de crescimento da relva é completamente diferente. É por isso que hoje as pessoas dizem que os fairways e os greens dos nossos campos estão muito melhores.

Este ano já investimos um milhão de euros em máquinas. E quem fala em máquinas, fala em buggies e em trolleys eléctricos. No campo Millennium, refizemos os caminhos para os buggies, outro investimento brutal. Estes caminhos, tal como tinham sido feitos há mais de 15 anos [o Millennium abriu em 2000], por causa das árvores e das raízes, deterioravam consecutivamente os buggies. Também poderia falar na questão da limpeza dos lagos e na substituição respetiva das telas, ou nas obras que entretanto já fizemos nas clubhouses do Victoria do Old Course…

E como tem decorrido a operação do golfe?

Basicamente, tivemos uma queda de clientes ingleses no primeiro semestre deste ano. Há dois grandes operadores que trabalham em Inglaterra, e o que nós sentimos foi que eles fizeram basicamente um desvio dos clientes que vinham para os nossos campos mais caros, para outros destinos mais competitivos do ponto de vista do preço, ou para outros campos mais baratos.

Hoje, em Inglaterra, as pessoas estão com mais cuidado, digamos assim, na escolha do lugar onde vão gastar o dinheiro nas suas férias, no seu desporto, na sua área de lazer – a Turquia, por exemplo, está a oferecer o jogo de golfe a quem fique noites nos hotéis.

Em geral, é uma redução do número de ingleses que vem para o Algarve, também porque o preço dos transportes aéreos subiu e ainda fazemos face à falência da Monarch e da Air Berlin e de mais uma ou duas pequenas companhias aéreas, que asseguravam centenas de milhar de assentos de avião a preços extremamente acessíveis.

Agora, nós vamos concorrer com isso, vamos competir, estamos a tomar medidas nesse sentido, também para gerir melhor as sinergias que temos entre os nossos hotéis e os nossos campos de golfe, no sentido de apresentar propostas e pacotes que sejam cada vez mais atrativos para jogar, porque o Grupo Dom Pedro tem uma condição única, que é ter três hotéis aqui em Vilamoura e cinco campos de golfe num raio de três quilómetros. Não há muitos lugares na Europa onde se possa juntar 500, 600 ou 700 quartos com cinco campos de golfe para jogar, o que permite ter mil pessoas a jogar ao mesmo tempo gerindo uma situação destas de forma articulada.

 

 

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