10 chaves para o 10º campeão


10 chaves para o 10º campeão

Como tudo se conjugou para que Padraig Harrington se tornasse, aos 46 anos, o mais velho vencedor do Portugal Masters no Victoria Clube de Golfe

Portugal Masters - Day Three1 – ARRANQUE EXPLOSIVO | Entre os campeões do Portugal Masters, nenhum começou de forma tão forte como o último. Metaforizando, foi o mais rápido a ir dos 0 aos 100km. Partindo do 10, somava 6 abaixo do par após 8 buracos, fruto de quatro birdies e um eagle 2 (no 15, o seu o sexto buraco de jogo). Alexandre Levy é, entre os vencedores do torneio, o recordista no capítulo da melhor primeira volta, com 63 pancadas, mas seguia apenas com 3 abaixo do par com aquele número de buracos jogados. Já Harrington acabaria os 18 inaugurais com 66, o mesmo duplo dígito com que começaram os três primeiros campeões do Portugal Masters (por esta ordem, Steve Webster, Alvaro Quiros e Lee Westwood), numa altura em que o Victoria ainda era de par-72 (passou a par-71 em 2011). Mas aquela sua partida explosiva foi importantíssima, porque lhe garantiu um pecúlio para fazer face à desinspiração nos greens nos restantes 10 buracos de jogo, concluídos com 1 acima do par. A seguir foi para o putting green corrigir o que estava mal e no dia seguinte entregou um cartão com 63. 

Portugal Masters - Day Four

2 – APOIO DO PÚBLICO | Em 2012, quem seguisse a prestação de Shane Lowry diria que o irlandês jogava em casa, pelo apoio que teve de centenas de compatriotas que seguiram ‘in loco’ a sua caminhada rumo ao título. E quando o inglês Ross Fisher falhou, no 18, um putt de pouco mais de 1 metro, para lhe oferecer a vitória, pareceu antes que este apontara um auto-golo num estádio de futebol adverso. Padraig Harrington, o segundo irlandês a conquistar o Portugal Masters, sempre sentiu esse apoio ao actuar no Victoria. “Há tanta gente da Irlanda, são multidões. Na verdade, sempre me senti aqui como numa casa longe de casa, pelo que é mesmo muito bom ter vencido o torneio”, afirmou. Mas o triplo-campeão de majors não se esqueceu do público português. “Também recebo aqui muito apoio dele. O meu treinador de golfe original, Harold Bennett, e o seu filho, Tony, foram os primeiros treinadores aqui na Federação Portuguesa Golfe. Por isso sempre tive um pouco de afinidade com ela. È um lugar onde sempre me senti muito bem recebido.”

3 – CONHECIMENTO DO CAMPO | A estreia de Padraig Harrington  no Portugal Masters deu-se em 2009 e foi de bom nível, sendo terceiro classificado isolado, apenas atrás de Lee Westwood e Francesco Molinari, campeão e vice-campeão, respectivamente. Além desta, esteve nas edições de 2011 e 2012, em ambas terminando no 16.º lugar empatado; e nas de 2014 (47.º empatado) e 2015 (31.º empatado). Ou seja, antes do triunfo de Outubro, participara já numa mão cheia de edições, sem nunca falhar o cut, o que dá um total de 24 voltas já percorridas no Victoria. Claro que neste capítulo não se compara com os jogadores que não falharam nenhuma das 10 edições (Alvaro Quiros, Robert Rock, Anthony Wall, Raphel Jacquelin, Marcel Siem). No entanto, seis presenças no palco do maior torneio de golfe português já é bom número para se sentir confortável, em território familiar. “É um campo interessante, que proporciona muitas oportunidades de birdie, mas que tem também uma boa gama de shots desafiantes com água em jogo”, considera o décimo campeão do torneio.

Portugal Masters - Day One

4 – CONFIANÇA | Que época estava a protagonizar Padraig Harrington antes de vencer o Portugal Masters? Não estava a ser nada de especial, especialmente para os parâmetros de um jogador com o seu currículo: ocupava a 97.ª posição na Race to Dubai, tendo sido a sua melhor marca o 13.º lugar no US PGA Championship – quarto e último major do ano, que ele venceu no ano de 2008 após revalidar o título no British Open. Mas nada disto o afectava, pelo contrário, ele sabia que podia ganhar a qualquer momento: “Há meses que tenho estado a jogar bem em termos do controlo que tenho sobre a bola e a sentir-me bem com o meu swing, o que me permite focar mais no lado mental do jogo, algo que é sempre um bom sinal. Tenho estado a ‘patar’ melhor – estou a meter mais putts de meia distância do que alguma vez meti na minha carreira. E tenho dito às pessoas que quando conseguir juntar as duas coisas vou ter uma semana em cheio, uma semana em que poderei ganhar.” Essa semana aconteceu no 10.º Portugal Masters!

The_PressurePrincipal 5 – O LIVRO DE DAVE ALRED | Padraig Harrington confessou que o “segredo” da sua vitória esteve no livro, “The Pressure Principle [“O Princípio da Pressão]”, lançado recentemente pelo seu practice coach, Dave Alred, um dos maiores especialistas em preparação mental e de desempenho. O jogador de Dublin estava a lê-lo por ocasião do Portugal Masters e deixou claro que a obra o ajudou a ganhar em Vilamoura, dando-lhe “alguns ponteiros” que “talvez estivesse a descurar”, aos quais se “agarrou” durante a semana. Ou seja, ajudou-o a converter a confiança que tinha no seu jogo em resultados. Ele explica: “Naturalmente, conheço muita coisa do livro, mas um capítulo sobre linguagem acertou-me em cheio. Tenho estado muito relaxado sobre o meu golfe, mas aquilo acrescentou um novo prisma. Não é apenas ser positivo, é olhar pelas generalidades em que podemos entrar, as generalidades negativas. Pude ver uma mudança linguística no que estava a dizer mentalmente para mim mesmo, uma mudança física na minha postura.” 

6 – AGRESSIVIDADE | É o próprio que diz, a propósito do seu desempenho em Vilamoura: “Tentei ser realmente agressivo. O campo ajustava-se-me e eu procurei simplesmente atacar todas as bandeiras possíveis. Pelo tipo de rough e pela textura dos greens, nunca pensei que pudesse ficar do lado curto.” Quem arrisca, petisca, e Harrington acabou por cometer a proeza de igualar o recorde de pancadas (261, 23 abaixo do par) no agregado dos 72 buracos, que havia sido estabelecido o ano passado por Andy Sullivan, o qual foi vice-campeão um ano depois, a um mero shot do irlandês; e também estabeleceu a mais baixa marca do ano no European Tour. Ao todo, fez 26 birdies e 1 eagle, contra 5 bogeys. Como termo de comparação, o ano passado Andy Sullivan tinha feito 26 birdies contra 3 bogeys. Mas enquanto este iniciou a última volta com uma vantagem confortável e caminhou numa passadeira vermelha rumo à vitória, o irlandês lutou arduamente até ao fim com uma concorrência feroz e só ao cair do pano pôde suspirar.

Portugal Masters - Day Four7 – JOGO CURTO | A agressividade de que acabámos de falar só pôde ser possível devido ao jogo curto magistral que exibiu. “Tenho um jogo curto bastante bom e que estava em forma esta semana, e além disso tenho ‘patado melhor – estou a meter mais putts de meia distância do que alguma vez meti na minha carreira. Senti-me sempre muito confortável à volta dos greens. Onde quer que acertasse, sentia que podia fazer up & down”, resumiu. Prova disso foi a forma como selou a vitória no 72.º e último buraco regulamentar. O campeão em título Andy Sullivan estava a ver na televisão o que se passava com o último grupo no 18 e à espera de um deslize de Harrington para ir a play-off, mas acabou por testemunhar um fantástico e nada fácil chip & putt para o par vitorioso do seu rival, que havia feito birdie no 17 (o signature hole) pelo terceiro dos quatro dias de prova e acabou com um 65 sem bogeys. O excelente estado dos greens ajudou e mereceu o seu elogio: “Óptimos para o rolamento da bola. Nos putts entre os quatro e os seis metros, não pensávamos na velocidade, apenas em executá-los na direcção do buraco.”

8 – PARTIR ATRÁS DO LÍDER | O trajecto de Padraig Harrington no Portugal Masters 2016 em termos classificativos foi este: 12.º empatado aos 18 buracos, 3.º empatado aos 36 e 2.º aos 54, neste caso com a desvantagem mínima para a dupla de líderes escandinava composta por Anders Hansen e Mikko Korhonen. Estatisticamente, isto dava-lhe alguma vantagem, visto que só dois dos nove anteriores campeões o tinham sido partindo na frente para a jornada decisiva  (Alvaro Quiros em 2008 e Andy Sullivan em 2015). Mas não só, existe ainda a questão mental, como explica Harrington: “Definitivamente, é mais fácil, ou, digamos, menos stressante estando um pouco atrás. Se os que estão atrás fizerem alguns birdies no início, ganham momentum para o back nine, ao passo que os que lideram têm sempre um olho em não fazer um erro, é como é.” No historial do Portugal Masters, a maior recuperação em relação ao líder na última volta pertenceu ao australiano Richard Green, que era 15.º empatado, a 7 pancadas (!) do espanhol Pablo Martin, acabando por ganhar.

Portugal Masters - Day Four9 – MOMENTUM | “Há sempre um ponto de viragem na última volta”, conta Padraig Harrington, acrescentando: “Eu estava a jogar bem, mas ter metido o shot do bunker no 11 deu-me a sensação de que aquele iria ser o meu dia. Quando fazemos algo de semelhante na última volta, temos sempre a sensação de que esse poderá ser o nosso dia. Há um ponto em que podemos agarrar ou perder a oportunidade e, independentemente do que acontecer depois, olharemos retrospectivamente para esse momento.” No seu caso, olhar com gosto. Foi uma última jornada emocionante, com várias trocas de líder e com tudo a decidir-se apenas no último putt, no último buraco, no último grupo. Atenção que quando Anders Hansen fez o seu terceiro birdie consecutivo no 6, Harrington estava já 3 shots atrás da liderança. Mas reduziu para 2 com birdie no 7 e no 11 protagonizou um dos grandes momentos do dia (e do torneio) ao meter a bola directamente no buraco com um shot a partir do bunker à esquerda do green. Chama-se momentum – e Harrington soube bem tirar partido dele, até porque no 12 fez novo birdie. 

Portugal Masters - Day Four

10 –  SAUDADES DE GANHAR NA EUROPA | Sim, parece impossível, mas a vitória de Padraig Harrington no Portugal Masters foi o seu primeiro êxito no European Tour em solo europeu desde que em Julho de 2008 se tornou no primeiro jogador europeu desde James Braid em 1906 a vencer duas vezes consecutivas o British Open. Interromper um jejum de vitória que durava há mais de oito anos foi sem dúvida uma motivação adicional para o irlandês, que nem sequer reparou no regresso da marca registada dos seus olhos, o sinal de intensa focalização que caracterizou tantas das suas vitórias no passado. E qual foi o sabor de voltar ganhar? “Tenho vencido nos últimos anos noutros lugares. Ganhei o ano passado nos Estados Unidos, alguns na Ásia. Tenho ganho o suficiente para manter a andar, mas é bom ganhar na Europa, e é sempre importante ganhar em cada década”, responde. É verdade, a primeira vitória dele no circuito foi no Open de Espanha de 1996, pelo que já lá vão três décadas sempre a ganhar. O Portugal Masters foi o seu 15.º triunfo no European Tour e o 30.º mundial. Notável atendendo aos seus 46 anos – é aliás o mais velho vencedor da prova portuguesa, superando aos 39 anos do inglês David Lynn em 2013.

 

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